A série Afinal, o que querem as mulheres?, da Rede Globo, conta a história do psicólogo André que tenta desvendar a famosa pergunta proferida por Sigmund Freud. E assim como todas as histórias produzidas e dirigidas por Luiz Fernando Carvalho para o canal, como em Hoje é Dia de Maria, A Pedra do Reino e Capitu, nota-se uma apelo estético bastante apurado e pouco convencional.
Nessa trama em particular, o diretor oferece uma linguagem rápida, pós-moderna e nonsense, reconhecida a partir da profusão de cores, da iluminação vibrante e pouco natural, de uma edição dinâmica e fragmentada, de elementos cênicos disformes, de vestimentas exageradas e detalhadas e da predominância de planos fechados.
A abertura, portanto, não poderia deixar de acompanhar todo esse requinte visual dado àatração. Para isso, Luiz Fernando juntamente com a equipe de Hans Donner, resolveram elaborar uma animação surreal inteiramente baseada nas belíssimas e vibrantes ilustrações de Olaf Hajek.
Alexandre Romano, um dos principais responsáveis pelo projeto, conta com detalhes sobre o motivo da escolha do artista alemão, além de todo o processo de concepção e produção da belíssima peça:
Entrevista: Alexandre Romano [Rede Globo]
Televisual - O programa tem uma concepção visual elaborada e distinta envolvendo desde figurinos e iluminação até edição e fotografia. A abertura precisava acompanhar isso. Como foi o desafio?
Alexandre Romano [Rede Globo] - O trabalho do diretor Luiz Fernando Carvalho é conhecido por ter um cuidado estético e um refinamento visual rico em referências artísticas e literárias, o que traz para o desenvolvimento de uma abertura gráfica uma grande responsabilidade e compromisso com sua linha de trabalho. Por outro lado essa riqueza de conteúdo nos deu o caminho para criarmos uma sintonia entre a abertura e o programa. Nosso maior desafio foi interpretar as ideias e referências trazidas pelo diretor, criando uma identidade que representasse toda a obra de uma forma original, funcionando em harmonia ao mesmo tempo que apresentada de forma diferente dos episódios.
Televisual - A abertura traz uma série de ilustrações do artista Olaf Hajek. Como se deu essa escolha?
Alexandre Romano [Rede Globo] Trabalhar com as ilustrações do Olaf Hajek foi parte do briefing do Luiz Fernando para a abertura. O trabalho do Olaf representa o universo feminino de uma forma singular, rica em textura e cores e natureza. Mostra o fascínio dos homens pela mulher, seus desejos e beleza. Seu trabalho também seria usado dentro da série e ilustra o roteiro/sketchbook de referencia do diretor.
Televisual - Houve alguma participação ou interferência do diretor Luís Fernando Carvalho na concepção da peça?
Alexandre Romano [Rede Globo] - Assim que recebemos o briefing entramos em contato com o Olaf em conjunto com o próprio Luiz para que ele fizesse ilustrações exclusivas que representassem cada fase ou episódio da série. Seriam 6 ao todo, e a partir delas desenvolveríamos uma animação integrando os elementos de cada fase. A primeira e mais trabalhada foi a da cabeça do Freud que dá iníco à abertura e faz parte da logo. A cada skecth que o Olaf nos mandava o Luiz fazia observações sobre o conceito de cada elemento e por isso foi um processo demorado que resultou na belíssima primeira pintura. Já a partir da segunda ilustração o Luiz começou a perceber que trabalhando “sobre encomenda” o trabalho do Olaf estava perdendo a força em relação à suas obras originais, então pediu para que ele fizesse alguns elementos específicos e resolveu usar partes de algumas obras já produzidas pelo pintor.
Ficamos então com 2 ilustrações prontas e aprovadas, 2 inacabadas e cerca de 20 trabalhos originais do Olaf (os quais adquirimos os direitos) para montar um design original para contar a história na abertura.
Em uma nova reunião o Luiz Fernando foi contando a história do que cada elemento das pinturas poderia representar para o texto da série e deu total liberdade criativa para que pudéssemos criar um “jardim das delícias” do mundo de “Afinal o que querem as mulheres?”.
Além disso ele pediu para que as animações fossem simples, suaves e que não perdessem o espírito de obra de arte. Fizemos um “piloto” de animação com a ilustração da cabeça do Freud sugerindo o estilo de animação dos elementos explorando as possibilidades um pouco além do que havia sido pedido, já usando um close do Freud em 3D, mostrando detalhes e textura das telas e dando outra profundidade e vida ao belíssmo trabalho do Olaf, para que soubessemos até onde poderíamos ir. Luiz Fernando viu, adorou e deu carta branca para darmos continuidade ao resto da abertura que foi ao ar sem alterações.
Televisual - Quanto tempo levou entre ideia e execução da abertura?
Alexandre Romano [Rede Globo] - O desenvolvimento da abertura se dividiu em 2 fases. A primeira onde o Olaf começou a desenvolver as ilustrações “encomendadas” levou mais tempo, cerca de 2 meses. A segunda fase foi a de criação e desenvolvimento da linguagem da animação, design e montagem das cenas e finalização. Nesta tivemos cerca de 35 dias com parte da equipe dividida em outras produções.
O processo da segunda fase inclui o recorte e reconstitiução digital de todos os elementos, para deixarmos o Olaf à vontade em seu processo ele pintou direto em tela sem “layers” então todo objeto que estava sobreposto precisou ser redesenhado pois teríamos eles detacados na animação.
Algumas cenas e objetos foram projetados em malhas 3D, como a cabeça do Freud e a cabeça da Mulher de Flores para explorarmos mais detalhes em close. Todos os elementos foram montados e animados em layers 3D no After Effects onde fizemos a camera, iluminação e todo o tratamento da abertura.
Making of
Televisual - Além de Olaf Hajek, cite algum outro trabalho ou artista que serviram eventualmente de inspiração para o trabalho.
Alexandre Romano [Rede Globo] - Inspirações hoje em dia estão em toda parte, é difícil dizer pois é o conjunto de experiências delas que faz as idéias tomarem forma. Pra citar uma referência que pessoalmente gosto muito e deve ter me influenciado nesse tipo de animação é o “Tale of How” e “Ringo” do estúdio Black Heart Gang. Mas outros artistas/estúdios que admiro muito como Mk12, Nando Costa, Carlos Bêla, Cisma, Adam Gault, Shilo, PsyOp, Dave Mckean, Beatriz Milhazes, Buck entre outros com certeza também adicionaram.
No caso deste trabalho a preocupação principal era ficar o mais fiel do estilo do Olaf possível, como tive que criar novas composições com partes de seus trabalhos já era um desafio que o design dessas composições ficassem em harmonia com o seu estilo que era a base do conceito inicial.
Olaf esteve no Brasil para a estreia da série, ele expôs seus trabalhos numa galeria de arte como parte da divulgação. Nesta data ele esteve na Globo para conhecer nosso processo e ver em primeira mão a abertura quase finalizada. A expressão dele ao ver seus trabalhos animados com outra profundidade fez valer mais a pena ter trabalhado neste projeto. Além de minha satisfação pessoal de ter trabalhado com sua belíssima arte, ouví-lo agradecendo por termos levado suas pinturas a outra realidade foi muito recompensante.
Alexandre Romano [Rede Globo] - Gostaria de agradecer ao Hans Donner e Alexandre Pit por sempre acreditarem e darem força e apoio ao meu trabalho, ao Fabricio Duque, Gus Duval e Igor Ching artistas incríveis que se dedicaram de cabeça no projeto que foi produzido e realizado pela equipe da Videographics | CGCOM – TV Globo.
Obrigado pelo convite e parabéns pelo site!
Abertura e Bumpers
Ficha Técnica
Ano: 2010
Canal: Rede Globo
Produção: Videographics (Rede Globo)
Direção de Criação: Hans Donner e Alexandre Pit
Direção de Arte: Alexandre Romano
Ilustrações e Pinturas: Olaf Hajek
Computação Gráfica: Alexandre Romano
Animação 2D: Alexandre Romano, Gus Duval
Animação 3D: Fabricio Duque, Gus Duval
Composição: Alexandre Romano
Ilustração e Manipulação Digital: Igor Ching, Jonas Assis
Marca: Rodrigo Gomes
Som: Luiz Fernando Carvalho e Melamed































![Identidade: 82nd Academy Awards [Oscar 2010]](http://blogtelevisual.com/wp-content/uploads/2011/02/0000_identidade_oscar2010-189x106.jpg)

Projeto maravilhoso. Adequado e efervescente. Parabéns Alexandre Romano. Enfim uma abertura toda amarrada: do prólogo à assinatura, parabéns Equipe. Falando em equipe acho um desrespeito nos Sites de ‘algumas atrações’ da Rede Globo não colocarem nos créditos os profissionais que fizeram as Aberturas. Um ítem importantíssimo para
qualquer Projeto.
P.S.: Espero que o crédito à Olaf Hajek não fique só aqui, se estenda nos créditos na TV. Que não aconteça como Manasses Andrade em Cabocla,
que não apareceu, na época, em lugar nenhum :-S.
Concordo com você Joel. As emissoras de forma geral não se preocupam em dar os créditos a todos os responsáveis sobre os projetos. Mas isso está mudando um pouco, não por iniciativa dos canais, mas por conta dos profissionais profissionais que cada vez mais divulgam seu trabalhos pela internet e entendem a importância de valorizar toda a equipe. Afinal, um trabalho como esse dificilmente é feito por uma ou duas mãos, como nos fazem pensar.