
A Music Television, ou simplesmente MTV nasceu em 1981 nos Estados Unidos como um canal dedicado ao videoclipe, principalmente ligado aos estilos pop e rock. No Brasil, o canal foi inaugurado nove anos depois, adotando o mesmo conceito e linguagem, obviamente obedecendo algumas adaptações a realidade nacional. Desde o seu início, a MTV construiu uma programação baseada em cima de uma proposta gráfica. Afinal, assim como uma das principais funções do videoclipe, os seus projetos audiovisuais deveriam valorizar mais que somente o som, mas também a imagem e as sensações e informações adicionais que poderiam ser extraídas por ela. E para isso, a canal sempre buscou incessantemente a exploração dos mais variados efeitos visuais e tendências estético-formais possibilitados pelos recentes recursos técnicos e artísticos. Isso ficava ainda mais latente já que o surgimento do canal surgia em um momento importante para as arte e o design, no qual se discutia os novos caminhos do modernismo.

Com isso, a MTV abandona em sua maioria a estética futurista, com as formas tridimensionais com efeitos metálicos e brilhosos de Hans Donner e dos canais americanos e se apóia primordialmente no aspecto bidimensional (embora utilize também o recurso 3D) e de propostas formais da Gestalt. A MTV foge da limpeza e do minimalismo, rompendo com pensamentos modernistas e das escolas tradicionais de design, e chega até a uma proposital poluição visual através da disposição de elementos e cores em demasia, conferindo certo aspecto caótico e underground. Essa estética nitidamente era baseada nos movimentos alternativos das décadas de 80 e 90, alguns fortemente ligados à música, como o punk, o psicodelismo e a new wave, e de tendências artísticas pós-modernas, como a Pop Art. Aliás, para alguns estudiosos, a linguagem gráfica da MTV se enquadra perfeitamente nesse conceito de pós-modernismo, que têm como principais características a liberdade de expressão, ruptura de cânones, culto ao movimento e o experimentalismo.
A marca da MTV, uma estilização de um muro pichado, símbolo de rebeldia, é formada basicamente por um “M” tridimensional e sem serifa sobreposta com um “TV” grafitado de forma manuscrita. Através destes dois padrões tipográficos, completamente distintos, já se nota o estabelecimento de uma proposta de canal baseado em diferentes linguagens. Além disso, indo contra a crença de que as identidades visuais devem seguir uma unidade, consistência e coerência, a marca do canal reforça sua pregnância através do chamado design cambiante, revelando-se ou construindo-se de formas completamente variadas e inusitadas nas mais diversas cores, texturas, materiais, adornos e formatos.

Já as vinhetas institucionais da MTV acompanham todas essas variações, em uma linguagem experimental, geralmente marcada por um certo non-sense e um humor particular. As técnicas e temáticas utilizadas variam completamente como: o desenho animado, a cultura oriental, a história em quadrinhos, a colagem eletrônica, o movimento psicodélico, o pastiche, a estética cinematográfica e do videogame, o efeito stop-motion, entre muitos outros.
As aberturas dos programas da MTV também seguem essa mesma linha da multiplicidade estética. Porém, em muito casos, o nível de decodificação também tende a ser relativamente maior que as vinhetas dos intervalos, por apresentar uma relação mais direta com o formato e o estilo do que vai ser posteriormente transmitido.
Todas essas qualidades construídas a partir dessa mutação constante da marca MTV são predominantemente voltadas para uma ala mais jovem, um público crítico, com atitude, impulsionado pelas novidades musicais e comportamentais e não estagnada á conceitos tradicionais. Tanto é, que todas as peças audiovisuais, desde chamadas, família tipográfica, aberturas, entre outros, são sempre substituídas periodicamente e constantemente, alimentando uma gana por novidades, pela diferenciação e pelo experimentalismo.
Umas das características peculiares das vinhetas da MTV que ressaltam esse conceito é a transmissão de uma seqüência rápida na programação, produzindo um efeito de zapping sem ao menos o telespectador tocar no controle remoto. Algumas vezes, toda essa fragmentação, variação de velocidade e profusão temática e técnica poderiam conferir certo desconforto e estafa visual. Essa postura, para alguns, pode ser considerada algo negativo, por acreditarem que isso possa provocar uma efetiva troca de canal ou até o desligamento do aparelho televisor. Mas para alguns estudiosos, essa característica seria nada mais que uma estratégia. Um atributo intencional para que haja um descanso mental para a apreciação do próximo clipe ou programa. Independente das controvérsias, esse efeito zapping e a suposta tentativa intencional de provocar o usuário a mudar de canal ou desligar a televisão acabam acentuando essa liberdade de escolha e a formação de um lado crítico.

Uma campanha produzida pela emissora em 2004 mostrou bem essa filosofia implícita nessa questão apontada no efeito zapping, assim como mostrada em toda a identidade do canal. Em uma vinheta sem muitos artifícios gráficos, com apenas um fundo preto sob letras brancas, o narrador e a frase diziam: “Desliga a televisão e vá ler um livro!”. O jornal O Estado de São Paulo publicou uma pesquisa realizada pelo Ibope no mesmo ano apontando que 14% do público das classes A e B obedeceram à vinheta, sem ao menos mudar a outro canal. Sem contar com a influência publicitária, essa pesquisa apontava, de certo modo, o poder de fidelização e identificação com a marca.
Apesar de adotar esse lado crítico, é impossível deixar de levar em conta que a emissora, assim como as demais, não foge da realidade comercial vigente. Aliás, além de se tornar uma referência musical e da juventude, a MTV se transformou em um forte ícone do consumismo. A cada ano, por exemplo, são lançados produtos que recebem a marca do canal, como: roupas, serviços, alimentos e até automóveis.
Essas considerações comerciais envolvem inclusive na estruturação dos projetos gráficos televisivos já produzidos para a MTV.

O visual adotado na temporada passada, produzida pela empresa Nitrocorpz, empregava jovens segurando cartazes, cadernos, e outros objetos do mundo adolescente, além de simulação de colagens de adesivos, organizados aleatoriamente em suas chamadas comerciais. Todos eles eram predominantemente chapados com poucos adornos e figuras, além de elementos textuais simples, recebendo um aspecto um pouco mais limpo, diferente do costumeiramente empregado. Essa identidade mais direta e denotativa está relacionada com a postura inédita da emissora de abolir os videoclipes da programação (acreditando que eles deveriam ficar restritos a Internet, indo de contra a origem do canal) e trazer programas com apelo mais popular.

Na programação atual, os clipes voltaram a ter destaque, assim como a própria influência da Internet. Com isso, o canal voltou a uma postura mais crítica. A linguagem visual, por sua vez, manteve um minimalismo, porém retornou à abstração e a velocidade. As vinhetas, criadas por Dimitre Lima, são formadas por linhas coloridas que se movem em um ritmo rápido e aleatório, como ondas eletromagnéticas ou sonoras. Já a marca da MTV ganhou uma importância ainda maior. O símbolo, também com menos detalhes e mais limpo, se expande em caixas de textos das chamadas, quadros de oferecimentos comerciais e faixas de caracteres. Essa forma expandida da marca pode ser encontrada também de maneira padronizada em substituição das assinaturas diferenciadas das aberturas dos programas. Isso demonstra a necessidade de afirmar a importância da marca até mesmo em relação ao seu conteúdo.

Em outro momento mais remoto, mas que pode ser verificado em algumas ocasiões até hoje, a marca MTV recebeu, em mais uma de suas transformações, o elemento circular e as cores pátrias – o verde e o amarelo – com o intuito de destacar as características e diferenças da MTV Brasil em relação ao canal americano original.
A poder e sucesso da influência do design do canal pode ser mensurado através da avaliação de trabalhos desenvolvidos por muitos designers e criativos que vem utilizando dessa linguagem diferenciada como referência estético-visual para um alcance maior ao público jovem. No caso da própria televisão, o Multishow, canal da Globosat de entretenimento e música, pode ser considerado um desses exemplos da influência da disseminação da estética MTV e desse design considerado pós-moderno.
Confira algumas vinhetas e aberturas da MTV abaixo e aguarde os próximos posts:
Postado por André Luiz Sens
(Contribuições: Resfest, Rudinei Kopp e Arlindo Machado)
Tags: abertura, chamadas, design, design pós-moderno, design punk, Identidade Visual, logomarca, logotipo, marca, motion design, MTV, pós-modernismo, por art, psicodelismo, televisão, videografismos, vinhetas
novembro 18, 2008 às 9:26 am |
Abstração, algo bem MTV.
Achei massa essa “timeline” da identidade visual da MTV. Muito enriquecedor.
fevereiro 4, 2009 às 9:22 pm |
[...] essas vinhetas poderiam ser comparadas simplesmente como aqueles “loucos” e non-sense institucionais da MTV. Mas no Reino Unido, o público telespectador aceita com certa normalidade certos valores menos [...]
março 30, 2009 às 2:41 pm |
[...] a cada mudança de programação, a MTV Brasil reformula sua identidade visual. São criadas novas vinhetas, chamadas e até aberturas (para programas novos e antigos). Mas em [...]
novembro 25, 2009 às 8:39 pm |
[...] até agora o que se pode ver da identidade é a marca que, a exemplo da já tão comentada MTV e do caso recente de reposicionamento da AOL, se mostra cambiante e, por isso, forçosamente mais [...]